Você já amou profundamente alguém e, no instante seguinte, sentiu uma raiva quase insuportável daquela mesma pessoa? Já se surpreendeu odiando justamente quem mais ama — e, pior, se sentiu culpado(a) por isso, como se esse ódio fosse a prova de que o amor não é verdadeiro? Respire: a ambivalência não é a falência do amor, é a sua condição. Neste artigo, você vai entender, a partir da obra da psicanalista Melanie Klein, por que amor e ódio nascem juntos — e como a maturidade afetiva consiste, justamente, em integrar essa dupla face em vez de negá-la.

Esse tema dialoga diretamente com a forma como lidamos com conflitos no casal. Boa parte das brigas que parecem sem explicação é, na verdade, a ambivalência tentando encontrar palavras.

A descoberta de Klein: dois modos de se relacionar com o outro

Melanie Klein, pioneira da psicanálise infantil, revolucionou a compreensão das emoções ao propor que o bebê não nasce amando de forma serena e integrada. Ele nasce oscilando entre dois modos de viver o vínculo, que ela chamou de posições. Não são etapas que se superam de uma vez por todas: são maneiras de organizar a experiência afetiva que alternamos durante toda a vida — inclusive no amor adulto.

Entender essas duas posições é a chave para compreender por que o casal alterna momentos de fusão idealizada e momentos de raiva destruidora, e por que essa alternância, bem conduzida, é sinal de vida psíquica, e não de doença.

Posição esquizoparanoide: cisão, idealização e desvalorização

Na posição esquizoparanoide, o psiquismo lida com a angústia dividindo o mundo em duas metades estanques: o bom e o mau, o que nutre e o que frustra. Essa operação, chamada cisão (splitting), protege o sujeito da angústia de perceber que a mesma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, fonte de amor e de frustração. É mais simples manter separados o objeto idealizado e o objeto desvalorizado do que suportar a mistura.

No amor adulto, a posição esquizoparanoide aparece quando idealizamos o parceiro como perfeito — ou, no extremo oposto, o desvalorizamos como completamente errado. É o pensamento de "ela é tudo para mim" ou "ele é a pior pessoa que existe", sem meio-termo. O problema não é sentir raiva: é que, nessa posição, a raiva apaga o amor, e o amor apaga a raiva. A pessoa amada deixa de existir como pessoa inteira e vira um pedaço — todo bom ou todo mau.

Posição depressiva: integrar, se responsabilizar e reparar

A posição depressiva marca uma conquista psíquica fundamental: a capacidade de perceber que a pessoa que nos frustra é a mesma que nos ama. O termo "depressiva" não se refere a uma doença, mas a um tipo de angústia — a angústia de reconhecer que nossos impulsos agressivos se dirigem a alguém que também amamos e de quem dependemos. Desse reconhecimento nascem a culpa e o desejo de reparação: a vontade de cuidar, consertar e restituir o vínculo que a própria raiva ameaçou.

É aqui que o amor amadurece. Amar, na posição depressiva, não é não sentir raiva — é sentir raiva e, mesmo assim, escolher não destruir; é tolerar que o outro seja imperfeito e ambíguo sem precisar dividi-lo em anjo e monstro. Klein chamou essa conquista de gratidão: a capacidade de reconhecer o que o outro nos dá, mesmo quando ele também nos falta.

Ambivalência: amor e ódio não se anulam

A ambivalência é o nome exato desse estado em que amor e ódio coexistem dirigidos à mesma pessoa. E ela não é um acidente do vínculo: é a sua matéria-prima. Todo objeto de amor é, ao mesmo tempo, fonte de satisfação e de frustração — e é justamente por frustrar que ele se torna real, distinto de nós, com desejos próprios. Quem nunca nos frustra não existe de verdade; é apenas um espelho.

O que distingue o amor maduro do amor imaturo não é a presença ou ausência de ódio, mas o destino que se dá a ele. No amor imaturo, o ódio é negado ou atuado de forma destrutiva; no amor maduro, ele é reconhecido, nomeado e integrado. Um casal que consegue dizer "agora estou com raiva de você, e mesmo assim te amo" está mais próximo da intimidade real do que um casal que jamais admite sentir raiva. Para aprofundar como a confiança sustenta essa honestidade difícil, leia sobre construir e reconstruir a confiança.

Inveja e gratidão no vínculo

Em Inveja e Gratidão (1957), Klein contrapõe dois afetos centrais da vida amorosa. A inveja, em sentido kleiniano, não é apenas o desejo de ter o que o outro tem: é o impulso de estragar a fonte do bem, porque ela lembra ao sujeito aquilo que ele não consegue produzir sozinho. No casal, a inveja aparece quando a felicidade, o sucesso ou a autonomia do parceiro despertam um mal-estar que leva a diminuí-lo, a sabotá-lo, a "pisar" naquilo que se admira.

A gratidão, por outro lado, é a capacidade de receber o bem do outro sem precisar destruí-lo — e de sentir prazer nisso. É a gratidão que transforma a dependência em vínculo, em vez de transformá-la em rivalidade. Um relacionamento sobrevive quando a gratidão consegue, na maior parte do tempo, temperar a inveja; ele adoece quando a inveja passa a corroer, em silêncio, tudo o que o outro oferece.

Como acolher a ambivalência no casal, na prática

Acolher a ambivalência é uma prática, não uma teoria. Alguns movimentos concretos ajudam:

  • Nomeie os dois sentimentos juntos: "eu te amo e estou muito bravo(a) com você agora". A frase inteira é o que mantém o vínculo.
  • Evite as palavras totais: "você sempre", "você nunca", "você é impossível" são cisões em estado puro — transformam o parceiro em objeto mau.
  • Repare depois da raiva: a reparação não é pedir desculpas por sentir, é cuidar do vínculo que a raiva abalou — um gesto, uma conversa, uma presença.
  • Observe sua própria cisão: quando você oscila entre idealizar e desvalorizar, pergunte-se o que está tentando evitar sentir.
  • Permita que o outro seja inteiro: o amor maduro pede que o parceiro tenha direito a frustrar você sem deixar de ser amado.

Essas práticas se apoiam em uma base de inteligência emocional: a capacidade de sustentar sentimentos contraditórios sem reagir no impulso. Desconfie dos discursos que vendem o amor como pura harmonia — eles são, em geral, um convite à negação. Sobre isso, vale rever o que são mitos e verdades sobre o amor.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação ou tratamento psicológico. Se a ambivalência vira sofrimento persistente ou crises constantes, procure um psicólogo ou psicanalista. Na rede pública, os CAPS do SUS oferecem atendimento gratuito. Em crise emocional, ligue 188 (CVV, 24h).

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